segunda-feira, 5 de julho de 2010

Começou pelo fim

Começou pelo fim

- Pai hoje você tem alguma coisa pra fazer?
- Sim filho o papai sempre tem o que fazer, ler, trabalhar, estudar.
- Todo dia?
- Na verdade, a gente faz um pouco cada dia, desse monte de coisa, quando a gente acaba uma a gente ja começou a fazer outra.
- Pai quando a gente acaba tudo é que a gente morre?

O pai abaixa seu livro, respira profundamente, e reflete como a muito tempo não refletia.

-Não filho, quando a gente morre ainda fica muita coisa por ser feita.
-Mas e ai? acaba então que não era tão importante você faze-las.
-O importante, a gente deixa pro nosso tempo livre, para que possamos curtir, mas sempre adiamos esse tempo livre.

O filho com a igenuidade e a sapiência de uma criança, olha o pai como quem não entende essa lógica estranha.
A mente do pai vaga no ar com as tocantes frases do filho.

-Pai, em vez de fazer um pouco de tudo, porque você não faz, até o fim, o que você realmente quer, ou acha importante?
-Filho, as coisas que realmente tem valor, e que algumas, eu já perdi, são feitas em minutos, as vezes nem demora uma hora. Seria dizer palavras, mais palavras, talvez ser sincero com as pessoas.
-Vovó já falou que você é assim por ser delicado.
- As vezes as pessoas disfarçam a covardia com a delicadeza, poderia ser mais angelical, se não tivesse receio de ser incomodo.
- Mas pai, não se deve sempre falar a verdade?
- Filho, a vida me ensinou que é mais fácil, e melhor para nós e para os outros, dizer o que querem ouvir, mas hoje vejo que as palavras que queria ter dito, eram a que eles deveriam ouvir. Sendo muitas delas palavras muito boas, outras conselhos e algumas até uns puxões de orelhas.
-E porque você não disse?
-Porque achava que aprenderiam com a vida, que o destino estava reservado para cada pessoa, mas, se pensarmos que a vida só depende de nós, e acreditarmos no livre arbitrio e em nossa real liberdade, vemos que somos condenados a viver com nossos atos.
Certa vez, um homem disse que a existência precede a essência, e isso significa que somos os donos de nossos proprios atos e ações.
-Sim pai, mas isso não seria até mesmo obvio? Se eu faço alguma coisa, fiz porque quis! Por mais que me mandem, teve minha vontade.
- O raro está ai filho! A vontade pura, a vontade do agora, a vontade sem culpa, sem receio, a vontade por si só, essa vontade é a unica que nos faz termos a completa noção, de que toda consequência, surgiu de uma causa nossa...sabe filho, aquele papo de que "faça o bem e você vai ter o bem etc"?
- Sim, na escola sempre falam isso também.
- Um dia, vão tentar te ensinar que a ciência e a religião são opostas...mas, se você fizer seus deveres e estudar direitinho, vai ver que as duas se complementam, e vai até mesmo conseguir provar a existência do que acham que nunca poderá ser comprovado.
-Pai do que está falando?
-Sabe o ser bonzinho? Você vai estudar um cara, Newton, e vai descobrir as leis de ação e reação...
-Hummm...

O pai fecha o livro levanta-se e poe sobre a mesa.

-Aonde você vai? Não queria acabar o livro?
-Depois disso, as letras de um livro voam da pagina. Tem letras e palavras que tocam mais a gente.
-Pai... desculpa, não queria ter interrompido.

O pai se ajoelhou em frente ao filho, até mesmo para ficar na mesma altura, assim como um gesto de quem pede perdão e tenta se redimir.

-Filho, nunca peça desculpas pelas suas puras vontades, pode até pedir desculpas se ferir alguém, mas, saiba que toda palavra tem sua força e sua hora pra ser colocada.
Antes de fazer seus deveres de casa, faça o que você acha que tem que ser feito, brinque com um amigo, sorria, abrace seus pais, e tudo mais que não poderá ficar sem você, no dia que você se for.

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